A febre do lettering: um novo papel para o design

De tempos em tempos, alguns estilos ou costumes surgem em determinadas áreas da sociedade, como esporte, política, moda e design, e passam a transformar o contexto em que estão inseridos, marcando uma época ou uma geração. Esse é o caso do lettering, uma febre impulsionada pelos adolescentes, que vem dando sinais de que veio para

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De tempos em tempos, alguns estilos ou costumes surgem em determinadas áreas da sociedade, como esporte, política, moda e design, e passam a transformar o contexto em que estão inseridos, marcando uma época ou uma geração. Esse é o caso do lettering, uma febre impulsionada pelos adolescentes, que vem dando sinais de que veio para ficar. 

E essa nova tendência impacta muito mais do que o dia a dia da Geração Z. Ela pode gerar também importantes consequências para o mundo dos negócios, além de diversos insights para outros universos, principalmente do design. Mas, se você ainda não está familiarizado com esse termo, não se preocupe. É exatamente isso que você vai entender neste artigo.

Que história é essa de lettering?

Essa não é, propriamente dita, uma novidade. O lettering é, basicamente, a antiga prática de caligrafia, em que as pessoas escreviam, manualmente, letras ou palavras de modo artístico, testando diferentes tipografias e maneiras de dispor as formas no papel. A diferença é que essa prática se popularizou e o que antes era uma atividade realizada exclusivamente por profissionais, agora se tornou parte do cotidiano de muitas pessoas. 

Mas, se ainda não conseguiu visualizar o que é o lettering, basta fazer uma rápida pesquisa nas redes sociais e você entenderá a dimensão desse fenômeno. Seja como ferramenta para desestressar no tempo livre ou seja para tornar os estudos e resumos escolares mais bonitos e divertidos, os adeptos dessa prática crescem a cada dia. 

E o lettering também vem sendo usado para outros fins. Ele permeia um movimento de organização pessoal bem maior, podendo facilmente ser visto, por exemplo, em planners e bullet journals, que são maneiras artesanais de você organizar, visualmente, a semana, o mês e, até mesmo, o ano todo (não, nada de google agendas!). 

O que isso revela sobre o design?

O primeiro insight diz respeito à valorização de recursos visuais para a resolução de problemas. As pessoas já perceberam que o pensamento do designer é muito significativo para criar soluções em diversas áreas e, por isso, o Design Thinking se tornou tão famoso.

Agora, o Visual Thinking também está ganhando força, porque ele vai além da lógica do pensamento do design, sendo um jeito ainda mais amplo de expressar as ideias. O conceito dessa prática é que as informações sejam traduzidas da forma mais visual possível, porque, dessa maneira, são assimiladas mais facilmente. Entendeu porque os resumos com lettering e os demais recursos estéticos, como os mind maps, são tão utilizados hoje?

Assim, podemos pensar em duas consequências principais para o mundo do design. A primeira é que a área está sendo mais valorizada, tendo em vista que as pessoas estão entendendo a importância de um bom planejamento estético. Mas, por outro lado, o design está caminhando para um novo momento, afinal, não basta mais fazer apenas algo agradável aos olhos, pois essa é uma atividade cada vez mais comum. 

Mas isso não significa que qualquer pessoa pode realizar o trabalho do designer. Hoje, a área caminha para um lugar cada vez mais estratégico, em que os recursos gráficos não têm o fim em si mesmos. Eles são utilizados como parte de um plano, que envolve outros elementos, a fim de trazer coesão para tornar a estratégia de comunicação mais eficaz.

E sobre o mundo dos negócios? 

Um outro insight vem do fato curioso de que itens de papelaria e atividades manuais estão sendo mais procurados justamente no momento em que o mundo vive uma intensa digitalização. É claro que a transformação digital é um caminho sem volta, mas, com isso, fica visível que ela não atinge todas as pessoas da mesma maneira.

E isso evidencia uma forte contratendência da valorização do off-line que, em 2019, foi um dos tópicos listados no relatório da Euromonitor, que retrata tendências globais de consumo. E revelou que algumas pessoas sentem prazer ao se verem desconectadas — basicamente, o contrário de Fear Of Missing Out – FOMO (Medo de Perder, em português).

Assim, nota-se também um reaquecimento do mercado de papelaria e artes. Segundo o jornal Estadão, diversos negócios surgiram recentemente nesse segmento. E, além disso, essa ascensão do lettering vem movimentando lojas tradicionais, que já ampliaram o seu leque de produtos para atender esse novo nicho de clientes. 

A prática do lettering na atualidade é mais uma prova de que as empresas precisam estar sempre atentas às tendências de comportamento e de consumo. Afinal, quem esperaria um retorno ao passado em um mundo cada vez mais adepto à praticidade do digital? E, para as marcas que quiserem se antecipar ainda mais, já há uma sinalização de que as atividades manuais, como planners, bordados e culinária, serão cada vez mais valorizadas.